Planeamento Estratégico é a Desculpa Mais Cara que as Empresas Contam a Si Próprias
Há um fenómeno curioso no mundo empresarial: quanto mais uma empresa fala de "planeamento estratégico" e "estrat´égia de expansão", mais provável é que esteja a adiar decisões difíceis.
E isto não é uma crítica ao planeamento. É uma crítica ao uso do planeamento como anestesia.
Porque planeamento estratégico, na prática, tornou-se mesmo um produto emocional: serve para dar tranquilidade aos gestores. Serve para dar a sensação de controlo. Serve para justificar que "estamos a trabalhar nisso".
Muitas vezes, fica-se por aí. Ora aí está o erro.
Uma verdadeira estratégia obriga a muitos "nãos":
- não a certos clientes
não a certos produtos
não a certas oportunidades
não a certos colaboradores
e muitas vezes… não ao ego do próprio empresário (este é muitas vezes o mais complicado de localizar).
É por isso que, em alguns casos, se preferem reuniões, workshops, apresentações e planos bonitos. Tudo isto dá trabalho — mas não exige ruptura, com o que está errado em prol do que está certo.
Estratégia não é um documento. É um conflito entre o certo pelo errado.
Uma estratégia cria conflito interno porque obriga a escolhas. E escolhas criam desconforto. Simples, mas difícil de digerir.
Por isso, o verdadeiro teste não é "temos estratégia?".
O teste é: a nossa estratégia obriga-nos a perder algo?
Se a estratégia não implica renúncia, então não é estratégia. É uma lista de desejos.
Outro vício comum: a empresa acredita que vai executar a estratégia quando estiver mais estável.
A frase típica é:
"Agora não é a melhor altura. Quando as coisas acalmarem, avançamos."
Só que as coisas nunca acalmam.
O mercado não espera. A concorrência não descansa. A equipa não fica magicamente mais eficiente.
A melhor altura para decidir é quase sempre agora.
A melhor altura para agir é quase sempre antes de entrar na zona de conforto.
Nada disto é um evento, é um compromisso diário.
- Alexandre Calapez
